Rio de Janeiro, . | Economia, História, Socialismo


Venezuela: qual será a dimensão final da tragédia?

Alexandre B. Cunha

Em fevereiro de 1999 o Sr. Hugo Chávez tomou posse na presidência da Venezuela. Eleito pelo voto popular em dezembro do ano anterior, ele imediatamente se pôs a transformar aquela que era uma das mais estáveis democracias da América Latina em uma ditadura socialista. Inicialmente, as mudanças ocorreram de forma relativamente dissimulada; apenas em janeiro de 2005 o tirano passou a declarar abertamente que o país estava a implantar o ‘socialismo do século XXI’. Nicolás Maduro, que sucedeu Chávez em março de 2013, manteve as práticas e políticas do seu falecido antecessor.

Diferentemente dos nossos petistas, os chavistas tiveram amplo sucesso em destruir as instituições democráticas, controlar a imprensa e aparelhar o judiciário e as forças armadas. Desta forma, após dezessete anos de um governo de extrema esquerda a Venezuela padece das mazelas que tradicionalmente afligem as nações que viajam pela trágica estrada que leva ao ‘paraíso igualitário’. Ou seja, para a infelicidade geral dos venezuelanos, o socialismo do século XXI em nada diferiu daquele do século XX.

Dentre outros problemas, neste momento os venezuelanos se defrontam com um total colapso da economia. O PIB apresentou uma queda de 5,7% em 2015. Para o ano em curso, o FMI projeta uma nova redução, agora de 8%, naquele indicador e uma inflação de aproximadamente 481%. E, conforme discutiremos a seguir, a escassez de alimentos atinge proporções absolutamente trágicas.

Não estivessem as universidades e escolas do Brasil há décadas totalmente controladas por professores esquerdistas, talvez este e o próximo parágrafos fossem desnecessários. Porém, as diversas tragédias socialistas raramente são mencionadas nas salas de aula desta nação. Em particular, os vários episódios de fome generalizada que ocorreram nas sociedades de economia planificada são usualmente ignorados. Assim sendo, tais fenômenos precisam ser discutidos neste texto.

Ao longo do século passado, ocorreram nas nações socialistas repetidos episódios em que a escassez generalizada de alimentos fez com que milhões de pessoas morressem de fome. Discutiremos muito brevemente três desses eventos. O primeiro ocorreu em 1932 e 1933 na (felizmente extinta) URSS: pelo menos 2,5 milhões de pessoas morreram de fome apenas na Ucrânia. Provavelmente com inveja da grande realização de Stalin, Mao Tse-tung orquestrou tragédia similar. De 1958 a 1961, morreram de fome não menos que 16 milhões de chineses. Mais recentemente, esse problema tipicamente socialista assolou a Coréia do Norte. Uma estimativa conversadora sugere que de 1995 a 1998 a falta de alimentos causou um milhão de vítimas fatais.

O leitor encontrará no final deste post diversos links e vídeos sobre atual escassez de alimentos na Venezuela e as tragédias ucraniana, chinesa e norte-coreana. Esse material sugere que a situação no país vizinho está atingindo um caráter de calamidade. Mais ainda: os relatos que de lá chegam são assustadoramente similares a eventos que ocorreram nos estágios preliminares da fome generalizada na Ucrânia no período 1932/33.

Adquirir alimentos em um supermercado é uma tarefa extremamente difícil. É preciso chegar à loja antes que ela abra e torcer para que haja algum produto disponível. É comum que as pessoas esperem por horas na fila para em seguida serem informadas que não há qualquer alimento disponível para venda. Aqueles indivíduos que têm a sorte de conseguir comprar algum produto se defrontam com o risco de serem roubados no caminho de volta para casa. Em 2 de maio último, o governador do estado venezuelano de Guárico proibiu o transporte de arroz para fora do estado. Evidentemente, não se toma tal medida fora de um contexto absolutamente desesperador.

De acordo com o relato do Sr. Ramon Muchacho, prefeito de Caracas, as pessoas estão caçando cães, gatos e pombos nas ruas e praças daquela cidade. Este fato é particularmente preocupante. Os diversos livros existentes sobre a tragédia ucraniana deixam claro que esse tipo de ação desesperada foi um dos últimos estágios a anteceder a completa ausência de alimentos em diversos locais daquela nação europeia.

Há que se deixar claro que a atual situação na Venezuela decorre única e exclusivamente da política econômica socialista. Para se recuperar, o país precisa de uma completa reversão das políticas governamentais. É improvável que isso aconteça enquanto Nicolás Maduro estiver no poder. E mesmo que a Venezuela adote, com ou sem Maduro, políticas econômicas sensatas, estas não terão um efeito instantâneo.

É possível que o leitor imagine que uma ação da comunidade internacional possa impedir a ocorrência de uma tragédia na Venezuela. Esse tipo de ação poderia ajudar, e muito, os venezuelanos. Porém, o país tem aproximadamente 31 milhões de habitantes. Não é crível que a ONU ou qualquer entidade consiga suprir plenamente as necessidades alimentares de tantas pessoas. Adicionalmente, o principal problema da Venezuela é que o governo socialista destruiu completamente a economia de mercado. A boa vontade internacional não será capaz de restaurá-la em um passe de mágica. E, enquanto a economia de mercado não voltar a funcionar, o país continuará a se defrontar com o desabastecimento de alimentos.

Fica aqui a indagação do quão severa será a crise da Venezuela. Desnecessário dizer que é do melhor interesse dos seus habitantes e de todos amantes da liberdade e da democracia ela seja debelada o quanto antes.


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Apêndice: links e vídeos

links

Pessoas caçam cães, gatos e ratos

Mantendo o arroz em Guárico

A descrença dos venezuelanos

Goiaba com “papelon” (um tipo de açúcar) e lágrimas

Caos nos hospitais

A tragédia ucraniana

A grande fome na China 1

A grande fome na China 2

Fome na Coréia do Norte 1

Fome na Coréia do Norte 2

vídeos