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Tirania: o legado político da Revolução Russa

Alexandre B. Cunha

Este é o segundo de uma série de três textos sobre o legado da Revolução Russa. Discute-se neste ensaio como aquele nefasto evento gerou um sistema político caracterizado por uma tirania absolutamente ímpar na história.

Conforme mencionado no post que analisou o legado econômico dos bolcheviques, uma sociedade socialista é caracterizada por severas restrições à propriedade privada e ao funcionamento dos mercados. Como consequência, o governo tem um controle quase que integral dos recursos produtivos e da atividade econômica.

No épico livro The Road to Serfdom, o economista austríaco Friedrich von Hayek afirmou que a concentração do poder econômico nas mãos do governo inevitavelmente levaria à tirania. Posteriormente, o economista norte-americano Milton Friedman e o escritor russo Aleksandr Solzhenitsyn argumentariam de forma similar a Hayek. A razão é relativamente simples. A título de ilustração, suponha que o estado tenha pleno controle sobre todos os empregos disponíveis na sociedade. Em tal contexto, o receio de ficar sem emprego pode fazer com que uma pessoa não manifeste ideias ou posições contrárias aos interesses dos governantes. Este autor discutiu esse problema com mais detalhes no texto Não existe democracia sem liberdade econômica.

O parágrafo anterior contém os elementos necessários para se compreender a razão pela qual o socialismo inevitavelmente leva a uma tirania totalitária. Ao abolir a propriedade privada e impedir o funcionamento dos mercados, o estado assume um controle quase que completo da atividade econômica. Assim sendo, ditadores socialistas como Stalin, Mao, Fidel e outros desfrutaram de poderes que muito provavelmente nenhum governante não socialista jamais desfrutou.

A concentração de poderes acima descrita levou ao surgimento de um estado monstruoso. Para fins práticos, a separação entre Executivo, Legislativo e Judiciário simplesmente deixou de existir. O mesmo vale para a separação entre estado, governo e partido. Em síntese, o estado socialista é uma aberração totalitária na qual o governante tem um poder quase que absoluto.

É natural que ao tentar compreender a essência das ditaduras socialistas, o leitor tente compará-las a regimes autoritários que existiram no Brasil. Mais especificamente, existe uma tendência de se fazer analogia com os governos militares do período 1964-85 e com o Estado Novo. Isso é um erro sério, pois tal analogia simplesmente fará com que o leitor não capte a real natureza da tirania socialista. A compreensão do fenômeno em questão requer que se discutam eventos que não possuem equivalentes na história brasileira.

Na visão deste autor, a mais completa descrição da monstruosidade socialista foi realizada por Aleksandr Solzhenitsyn no livro The Gulag Archipelago (vol. 1, vol. 2 e vol. 3). Infelizmente, o meu limitado talento como escritor e a restrição de tempo e espaço me impedem de proporcionar ao leitor a mesma compreensão que se obtém ao ler a obra de Solzhenitsyn. De toda forma, apresento nos próximos quatro parágrafos uma pequena amostra daquilo que uma tirana marxista-leninista é capaz. Adicionalmente, o leitor encontrará no final deste texto uma relação de websites e livros sobre o tema.

Solzhenitsyn narra em detalhes a sua prisão e a sua condenação. Ele era capitão do exército soviético durante a II Guerra. Em cartas que escreveu para um amigo, ele fez alguns comentários negativos sobre um “homem de bigode”. Isso era uma óbvia menção a Stalin. Naquela época (fevereiro de 1945), as cartas que saiam do front de batalha eram lidas pela polícia secreta. Por esse motivo, ele foi preso no próprio front e condenado a 8 anos de prisão em campos de trabalhos forçados. Cumprida tal pena, ele não pode retornar à Rússia, pois foi exilado internamente para o Cazaquistão (outra república soviética). Pois é, parece que os países socialistas não eram exatamente fãs dos direitos humanos tão alardeados pelos militantes esquerdistas…

Em diversas outras passagens, Solzhenitsyn deixa claro a onipresença do estado soviético no cotidiano das pessoas. Assim, se cinco indivíduos trabalharem no escritório administrativo e contábil de uma fábrica qualquer, a pergunta que cada um deles se fará não é se “existe um informante” da polícia secreta dentre aquele grupo e sim “quem é o informante”.

O governo socialista também era brutal com os familiares daqueles que ele considerava seus inimigos. Se uma pessoa fosse presa, então era comum que pouco depois os seus parentes próximos também o fossem. E o que dizer da tragédia que se abateu sobre Lyudmila Khachatryan, que foi enviada para o GULAG por ter se casado com um estrangeiro? E a coletivização da agricultura, que causou a morte de 6 milhões de pessoas e transformou os camponeses em escravos do estado soviético? E o sistema de passaporte doméstico, que restringia a locomoção e a escolha de local de residência dentro da própria URSS? E a obrigatoriedade de se registrar até mesmo uma máquina de escrever junto ao estado?

Os horrores brevemente delineados acima não são uma exclusividade da União Soviética. Por exemplo, todos ou quase todos os países socialistas tiveram o seu GULAG. Podemos também mencionar o Muro de Berlim, construído para impedir que as pessoas fugissem da Alemanha socialista. Evidentemente, não se pode deixar de mencionar os balseros cubanos, que, na desesperada tentativa de fugir de Cuba, utilizaram embarcações improvisadas para atravessar águas infestadas por tubarões.

Concluindo, a Revolução Russa criou o primeiro estado marxista-leninista do mundo. Esse estado, o qual serviu de modelo para todos os outros que o sucederam, era uma monstruosidade totalitária. A vida de cada pessoa, do nascimento até a morte, era controlada pelo governo. Ao indivíduo era negado até mesmo o fundamental direito de ir embora para outro país. Por esses e muitos outros motivos, este autor afirma que a tirania é, inequivocamente, um dos legados do funesto evento ocorrido em 7 de novembro de 1917.


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