| Economia, História, Política, Socialismo


Revolução Russa: um legado de pobreza, tirania e ódio

Alexandre B. Cunha

Este é o último de uma série de três textos sobre o legado da Revolução Russa. Discute-se neste ensaio como aquele nefasto evento gerou uma herança de pobreza, tirania e ódio.

A Revolução Russa ocorreu há exatamente 100 anos. Segundo os apóstolos do marxismo-leninismo, aquele evento deveria ser o ponto de partida de uma jornada que conduziria a humanidade a um estado de prosperidade, liberdade e fraternidade. Contudo, ocorreu exatamente o oposto. Conforme discutido por este autor nos textos Pobreza: o legado econômico da Revolução Russa e Tirania: o legado político da Revolução Russa, a tomada de poder pelos bolcheviques foi o primeiro passo de uma jornada marcada justamente pela pobreza e pela tirania. Desta forma, resta somente discutir o legado de ódio.

Não fosse isso trágico, a necessidade de se estabelecer que a Revolução Russa tem um legado de ódio seria algo simplesmente cômico. Afinal de contas, além de serem responsáveis por milhões de morte na URSS, os socialistas russos criaram o estado que serviu de modelo para as demais tiranias de cunho marxista-leninista. E, conforme discutido no Livro Negro do Comunismo, essas ditaduras foram responsáveis pela morte de aproximadamente 100 milhões de pessoas.

A cifra acima é simplesmente estarrecedora. Cem milhões… Definitivamente, não dá para fazer isso por engano; ou seja, não se está a falar de algo como “Perdão, eu apertei o botão errado e matei milhões de uma vez só”. Não há como cometer um erro dessa escala. Considere o caso da própria União Soviética. A coletivização da agricultura causou a morte de seis milhões de pessoas. Essas mortes ocorreram ao longo de um período de aproximadamente dois anos. Quantas mortes seriam necessárias para que o governo percebesse que algo estava errado? Será que não havia como algum militante socialista falar algo como “Já que quinhentas mil pessoas morreram, nós precisamos reavaliar as nossas políticas.”?

A interpretação mais favorável para os tiranos socialistas é que eles preferiram implantar as suas políticas a preservar a vida das pessoas. Pergunto então ao leitor: é possível tamanha indiferença? Colocando de outra forma, é possível permitir que tantas pessoas morram sem que haja um profundo desprezo pelos seres humanos? Se Lenin, Stalin, Fidel e outros fossem simplesmente indiferentes será que eles permitiriam tantas mortes? De toda forma, não há necessidade de se fazer conjecturas sobre o estado de espírito dos tiranos. Afinal de contas, conforme se demonstra a seguir, o próprio Lenin “passou recibo” dos seus reais sentimentos.

Reproduzem-se abaixo cinco trechos de alguns dos textos, notas e pronunciamentos de Lenin. As citações apresentadas estão em inglês e foram traduzidas para o português por este autor. Cada uma delas possui um link para uma fonte e também se menciona, entre parênteses, a sua localização aproximada na página. Vale ressaltar que se realiza mais à frente uma breve análise das fontes.

We would be deceiving both ourselves and the people if we concealed from the masses the necessity of a desperate, bloody war of extermination, as the immediate task of the coming revolutionary action. (Final do nono parágrafo.)
Nós estaríamos enganando a nós mesmos e o povo se omitíssemos das massas a necessidade de uma desesperada e sangrenta guerra de extermínio como a mais premente tarefa da vindoura ação revolucionária.

[…] there are times when the interests of the proletariat call for ruthless extermination of its enemies in open armed clashes. (Penúltima linha do penúltimo parágrafo.)
[…] há momentos nos quais o melhor interesse do proletariado demanda o impiedoso extermínio dos seus inimigos em irrestritos confrontos armados.

We can’t expect to get anywhere unless we resort to terrorism: speculators must be shot on the spot. (Final do primeiro parágrafo da seção II.)
Não podemos esperar chegar a qualquer lugar a menos que lancemos mão do terrorismo: especuladores devem ser executados imediatamente.

Ruthless war on the kulaks! Death to them! Hatred and contempt for the parties which defend them […] (Décimo segundo parágrafo.)
Impiedosa guerra aos kulaks! Morte para todos eles! Ódio e desprezo para os partidos que os defendem […]

[…] a strengthened guard of reliable persons to carry out merciless mass terror against the kulaks, priests and White Guards; unreliable elements to be locked up in a concentration camp outside the town. (Décima primeira linha do segundo parágrafo.)
[…] uma guarda fortalecida e composta por pessoas confiáveis para executar impiedosos atos generalizados de terror contra os kulaks, os padres e os membros do exército contrarrevolucionário; elementos não confiáveis devem ser presos em um campo de concentração localizado fora da cidade.

A última citação é um trecho de uma ordem emitida por Lenin em 9 de agosto de 1918, durante a guerra civil. Curiosamente, ela deixa claro que os socialistas utilizavam campos de concentração bem antes de Hitler chegar ao poder. A fonte é um livro de autoria do respeitado acadêmico Arno J. Mayer, que foi publicado pela editora da Universidade de Princeton.

As quatro primeiras citações estão disponíveis em um site marxista. A primeira delas é de um texto publicado em 29 de agosto de 1906; a segunda faz parte da transcrição literal de um discurso feito em 18 de março de 1908; a terceira está nas atas de um encontro, ocorrido em 14 de janeiro de 1918, de membros do soviet de Petrogrado com representantes de organizações responsáveis pelo abastecimento de alimentos; por fim, a quarta é integrante de um texto que Lenin redigiu na primeira quinzena de agosto de 1918 e que foi publicado pela primeira vez em 17 de janeiro de 1925. Todos esses documentos estão incluídos em uma coletânea dos trabalhos de Lenin.

As citações apresentadas neste texto são apenas uma pequena amostra das barbaridades escritas e faladas por Lenin. É um exercício relativamente simples utilizar a internet para localizar e verificar a autenticidade de outras citações daquele tirano. O Wikiquote é um bom ponto de partida.

Já se estabeleceu que Lenin, o principal líder da Revolução Russa, era um assassino movido pelo ódio aos seus opositores políticos. Aqueles que deram continuidade à sua ‘obra’ tinham um perfil semelhante. Por exemplo, sabe-se que no dia 12 de dezembro de 1937 Stalin assinou uma lista com os nomes de 3.167 pessoas para serem executadas e em seguida foi ao cinema. Em tal contexto, não é de surpreender que Che Guevara tenha declarado durante uma das assembleias gerais da ONU que “[…] devemos falar aqui algo que é uma verdade conhecida e que sempre afirmamos perante o mundo: fuzilamentos? Sim, temos fuzilado; fuzilamos e continuaremos a fuzilar enquanto for necessário.” (original traduzido do espanhol por este autor).

Lenin, o incontestável líder da Revolução Russa, era um indivíduo violento que declarou expressamente odiar os seus adversários políticos e que não hesitou em utilizar o terror e a morte para atingir os seus objetivos. Os demais ditadores socialistas que o sucederam somente deram continuidade a tais práticas. Por esses e muitos outros motivos, este autor afirma que o ódio é, inequivocamente, um dos legados do funesto evento ocorrido no dia 7 de novembro de 1917.


Notificações por email
Informe o seu endereço na caixa abaixo e clique no botão enviar para ser notificado por email sempre que um novo texto for disponibilizado no blog.