Rio de Janeiro, . | Esquerdismo, Socialismo


PSOL: um partido revolucionário

Alexandre B. Cunha

O PSOL é sabidamente uma organização de esquerda. Porém, a sua natureza extremista raramente é mencionada. O partido não tem como objetivo meramente reformar a ordem econômica e social estabelecida pela constituição de 1988. A análise do seu programa deixa claro que ele deseja destruir tal ordem e implantar um regime socialista no Brasil. Adicionalmente, o partido tem plena consciência de que essa transformação radical requer uma revolução.

O programa do PSOL foi aprovado em um encontro, ocorrido nos dias 5 e 6 de junho de 2005 em Brasília, o qual levou à sua fundação. Esse documento está disponível no site do próprio partido. O manifesto em questão está eivado de diversos chavões regularmente utilizados pela esquerda radical. Seguem-se alguns poucos exemplos.

Nessa perspectiva de caminhos novos para a discussão de um projeto socialista […]

Criou-se, assim, um novo e histórico momento para o país e para a esquerda socialista que mantém de pé as bandeiras históricas das classes trabalhadoras e oprimidas.

O sistema capitalista imperialista mundial está conduzindo a humanidade a uma crise global.

A lógica egoísta e destrutiva da produção, condicionada exclusivamente ao lucro, ameaça a existência de qualquer forma de vida.

A luta pelo socialismo é também a luta contra todas as opressões, injustiças e barbáries cotidianas.

O capital financeiro-imperialista não se limita à sangria do pagamento da dívida e dos ajustes impostos pelo FMI.

Não estamos formando um novo partido para estimular a conciliação de classes.

O atual regime financeirizado exige um grau bastante elevado de liberalização e desregulamentação das economias nacionais. E, por conta de dívidas externas nunca auditadas, impõe processos de privatização.

A grande burguesia brasileira é sócia da dominação imperialista.

O material acima deveria ser mais do que suficiente para estabelecer o caráter revolucionário do PSOL. Porém, sempre haverá algum ‘isentão‘ que dirá algo como “Que absurdo! Esse direitista reacionário está querendo colocar a pecha de radical no PSOL! Isso é uma calúnia odiosa! Mostre onde e quando o partido falou em revolução!” Evidentemente, não se pode deixar de atender tal pedido. Assim sendo, chamo a atenção para o trecho abaixo, o qual foi retirado do programa psolista (realce em negrito adicionado por este autor).

O essencial é ter como permanente a idéia de que não se pode propor essa outra sociedade construída sem o controle dos próprios atores e sujeitos da auto-emancipação. Não há partido ou programa, por mais bem intencionado que seja, que os substituam. Uma alternativa global para o país deve ser construída via um intenso processo de acumulação de forças e somente pode ser conquistada com um enfrentamento revolucionário contra a ordem capitalista estabelecida. Nesta perspectiva é fundamental impulsionar, especialmente durante os processos de luta, o desenvolvimento de organismos de auto-organização da classe trabalhadora, verdadeiros organismos de contra-poder.

Ou seja, conforme mencionado no título deste breve texto, o PSOL é um partido revolucionário.

Há mais algumas passagens ‘interessantes’ no manifesto psolista. Considere o seguinte segmento (realce em negrito adicionado por este autor):

É fundamental a democratização das forças policiais e em particular do Exército, com o direito a livre organização política das tropas, com direito das tropas elegerem seus próprios comandantes; com direito de promoção, sem limites para a baixa oficialidade.

Combine esse último trecho com a passagem abaixo, a qual já havia sido reproduzida neste artigo:

Nesta perspectiva é fundamental impulsionar, especialmente durante os processos de luta, o desenvolvimento de organismos de auto-organização da classe trabalhadora, verdadeiros organismos de contra-poder.

Qualquer pessoa familiarizada com a forma de atuar dos revolucionários esquerdistas imediatamente se lembrará da Revolução Russa (1917). Os bolcheviques chegaram ao poder através de um golpe de estado que contou com o apoio dos soviets (comitês) de trabalhadores e de guarnições militares que haviam sido subvertidas por militantes revolucionários.

Estratégia similar à da Revolução Russa já foi aplicada, felizmente sem sucesso, no Brasil. Em novembro de 1935, os comunistas brasileiros deflagraram um golpe de estado que teve como focos revolucionários algumas unidades do exército em Natal e Recife e na então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro. Os organizadores do levante contavam com a adesão, incitada por sindicalistas, de trabalhadores urbanos. Contudo, essa expectativa não se concretizou. Os revoltosos não tiveram apoio popular e nem de outras guarnições das forças armadas. Assim sendo, o golpe comunista foi facilmente derrotado pelo governo.

Matéria recentemente publicada pelo jornal O Globo discutia como que certo político psolista se defrontava com “o desafio de desfazer a imagem de sectário” e que por esse motivo ele buscava “suavizar a imagem de radical”. É de causar espanto que o caráter revolucionário do PSOL não tenha sido nem sequer mencionado na reportagem.


Atualização
Pelo menos duas correntes do PSOL admitem abertamente o seu caráter revolucionário: Coletivo Primeiro de Maio e SLR (Socialismo, Liberdade e Revolução).
Atualização realizada em 16 de abril de 2017.


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