Rio de Janeiro, . | Esquerdismo, Socialismo


O socialismo latino-americano e o tráfico de drogas

Alexandre B. Cunha

Introdução

Uma das mais abomináveis facetas da esquerda radical é o seu envolvimento com o narcotráfico. Este texto contém um breve relato da relação do movimento socialista latino-americano com o tráfico de drogas.

Discutem-se abaixo as conexões do presidente do Suriname Dési Bouterse, dos grupos terroristas FARC e Sendero Luminoso e dos governos da Venezuela e de Cuba com o narcotráfico. Esses casos, todos eles notórios, são discutidos na ordem em que foram listados. Feito isso, apresentam-se as considerações finais deste texto.

Dési Bouterse

O Suriname se tornou uma nação independente em 1975. O então sargento do exército Dési Bouterse chegou ao poder em 1980 por meio de um golpe militar. Ele permaneceu no poder até 1991, quando foi instalado um governo civil. O seu governo foi inequivocamente ditatorial, ocorrendo inclusive um infame massacre de opositores que ficou conhecido como Assassinatos de Dezembro. Mais recentemente, Bouterse foi eleito presidente pelo parlamento surinamês em 2010 e reeleito em 2015 para um mandato que expira em 2020.

Dentre todos os esquerdistas discutidos neste texto, Dési Bourtese é aquele que possui o mais fraco pedigree revolucionário. Ainda assim, ele é inequivocamente um simpatizante da causa socialista. Por exemplo, conforme mencionado em um artigo acadêmico, durante a sua primeira passagem pela presidência Bourtese deixou claro que desejava transformar o Suriname em um país socialista e revolucionário. Tanto que naquela ocasião o governo declarou que a nação era uma república socialista.

Os vínculos de Dési Bouterse com o tráfico de cocaína são notórios. Em 1999 um tribunal holandês o condenou por esse crime. Como se isso não fosse suficiente, o seu filho Dino Bourtese atualmente cumpre uma pena de 16 anos nos EUA pelos crimes de tráfico de drogas e terrorismo. Esse mesmo filho já havia sido condenado por tráfico de drogas, armas e carros roubados no próprio Suriname.

FARC

As FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) se constituem em uma organização terrorista marxista-leninista. Suas atividades de luta armada tiveram início em 1964. O seu objetivo consistia em transformar a Colômbia em uma tirania socialista. Em novembro de 2016 entrou em vigor um acordo de paz entre as FARC e o governo daquele país. Aparentemente, o conflito armado está encerrado.

A participação das FARC no narcotráfico está muito bem documentada. Um longo ensaio sobre esse assunto está disponível no website do Wilson Center. Um artigo mais curto foi disponibilizado pela fundação InSight Crime. Para os fins deste artigo, é suficiente relatar o seguinte fato: em um relatório de 2013, a InSight Crime afirmou que “Em termos numéricos, de capacidade militar, de controle territorial e de lucros decorrentes do comércio de drogas, as FARC se constituem em um dos mais poderosos cartéis de traficantes da Colômbia, e talvez do mundo” (trecho entre aspas em itálico traduzido do inglês por este autor).

Sendero Luminoso

O Sendero Luminoso é um grupo peruano de orientação maoísta. Essa organização iniciou as suas atividades terroristas em 1980. Ela era adepta de métodos brutais, como apedrejar indivíduos até a morte e cozinhar pessoas vivas em água fervente. Comunidades camponesas que não colaboravam com o grupo eram alvos frequentes dos terroristas.

A atividade revolucionária do Sendero Luminoso atingiu o seu ápice em meados de 1990. Posteriormente, o governo de Alberto Fujimori praticamente dizimou a organização. Contudo, ela existe até a presente data. Tudo indica que nos últimos anos a sua principal fonte de financiamento foi justamente o tráfico de cocaína (inclusive para o mercado brasileiro). Como consequência, em 2015 o governo dos EUA classificou o Sendero como um grupo narcotraficante.

Venezuela

Tudo indica que há traficantes no alto escalão do governo chavista. Considere o caso de Diosdado Cabello. De 2012 até 2015, ele foi o presidente do parlamento venezuelano. Atualmente, ele é a figura mais importante no PSUV (o partido chavista) após o presidente Nicolás Maduro. Diosdado é acusado de ser um dos líderes do Cartel de los Soles, um grupo criminoso que transformou a Venezuela em uma importante rota do tráfico de drogas e um polo de lavagem de dinheiro. Em consequência dessas suspeitas, em 18 de maio último o Departamento do Tesouro norte-americano impôs sanções a Diosdado Cabello. Dentre outras penalidades, ativos que porventura ele possua nos EUA foram bloqueados. Seu irmão e sua esposa também foram atingidos pelas sanções (link 1, link 2 e link 3).

O vice-presidente da Venezuela Tareck El Aissami também é acusado pelos EUA de narcotráfico e lavagem de dinheiro. Assim como Diosdado Cabello, ele teve os seus ativos bloqueados pelo Departamento do Tesouro norte-americano.

Há que se falar também no episódio que ficou conhecido como o incidente dos narcosobrinhos. Em novembro de 2015, dois sobrinhos da esposa do ditador Nicolás Maduro foram presos no Haiti quando se preparavam para fechar um negócio que resultaria no envio de 800 quilos de cocaína para os EUA. Em dezembro de 2017 cada um daqueles dois traficantes foi condenado a 18 anos de prisão por um juiz federal em Nova Iorque.

Dois traficantes venezuelanos, sobrinhos da esposa de Nicolás Maduro, são presos por agentes do governo dos EUA. Fonte: Wikimedia Commons.

A penetração do tráfico de drogas no governo chavista é tão intensa que recentemente a embaixadora dos EUA na ONU declarou que a população venezuelana é “vítima involuntária de um narcoestado criminoso” (trecho entre aspas em itálico traduzido do inglês por este autor). Por fim, há que se ressaltar que a transformação da Venezuela em um paraíso para os traficantes teve início ainda durante o governo de Hugo Chávez.

Cuba

A mais forte evidência do envolvimento do governo cubano com o narcotráfico é fornecida pelo Ochoa Affair (link 1 e link 2), um escândalo que ocorreu em 1989. Na ocasião, Cuba condenou o general Arnaldo Ochoa à morte por tráfico de drogas e outros crimes. Na época, ele era provavelmente o mais proeminente militar cubano.

Devido a sua proximidade com a Flórida, Cuba é, sob o ponto de vista dos traficantes, um dos melhores locais para se despachar drogas para os EUA. Inclusive, ao longo da década de 1980, promotores norte-americanos indiciaram um almirante cubano por envolvimento com o narcotráfico e afirmaram que a guarda-costeira cubana estava escoltando embarcações que carregavam drogas.

O julgamento do general Ochoa forneceu evidências de que as acusações feitas pelos norte-americanos eram fundamentadas. Ele foi preso em junho de 1989, julgado por um tribunal militar e fuzilado no dia 13 de julho do mesmo ano. Três outros acusados tiveram o mesmo destino. Dez outros réus foram sentenciados a longas penas de prisão. Dentre outros crimes, o general foi condenado por participar, em posição de liderança, de uma quadrilha que despachava para os EUA drogas que haviam sido enviadas para Cuba pelo Cartel de Medellin. É importante destacar que a sentença atribuída pelo tribunal foi confirmada pelo Conselho de Estado, um órgão do governo cubano cujo presidente era o próprio Fidel Castro.

Convém realizar uma breve recapitulação dos fatos. Ao longo da década de 1980, os norte-americanos acusavam membros do governo cubano de cumplicidade com grupos de traficantes que utilizavam portos da ilha para enviar drogas para a Flórida. Em 1989, um tribunal cubano condenou um general e vários outros réus por esse motivo. Em seguida, um alto órgão do governo cubano, presidido por Fidel, ratificou a sentença. Ou seja, o próprio governo cubano admitiu que Cuba era um entreposto do narcotráfico e que militares de altas patentes estavam envolvidos nessa atividade criminosa.

Surge então a seguinte indagação: será que (A) o general Arnaldo Ochoa efetivamente era o mais graduado socialista cubano envolvido com o narcotráfico ou (B) existiam pessoas acima dele participando do esquema criminoso? Conforme se discute abaixo, provavelmente (B) é a opção correta. Adicionalmente, é quase certo que o próprio Fidel Castro tinha ciência do que se passava.

Duas fortes evidências sugerem que Ochoa atuava a mando do seu governo. Primeiro, Cuba é uma tirania socialista na qual o estado tem um imenso controle sobre o cotidiano da sociedade. Um dos fatores que viabiliza tal controle é a existência de uma ampla rede de informantes. Desta forma, é praticamente impossível realizar de forma clandestina uma operação que conte com a participação de diversos militares de altas patentes (alvos frequentes dos serviços de espionagem do próprio governo) e que envolva entradas e partidas de barcos e aviões da ilha-prisão. Assim sendo, não faz sentido supor que Ochoa e seus cúmplices teriam se engajado no narcotráfico sem uma ordem ou pelo menos o beneplácito dos seus superiores. E tendo em vista que o general estava posicionado quase que no topo da hierarquia militar cubana, conclui-se que ele estava bem próximo do ministro da defesa: Raúl Castro, irmão do próprio Fidel.

A segunda evidência é composta pelos testemunhos de duas pessoas. A primeira delas é Juan Reinaldo Sánchez, que por dezessete anos trabalhou como guarda-costas de Fidel e posteriormente escapou para os EUA. Segundo Juan, ambos Fidel e Raúl sabiam que Cuba estava exportando drogas para os EUA. Recomenda-se ao leitor que tiver interesse em conhecer o relato de Juan com mais detalhes que leia o capítulo 15 do seu livro A Vida Secreta de Fidel. A outra é John Jairo Velásquez Vásquez. Ele foi o braço direito de Pablo Escobar, falecido líder do Cartel de Medellin. De acordo com John Jairo, Raúl comandava os militares envolvidos com o tráfico, ao passo que Fidel autorizou que a ilha-prisão funcionasse como rota de passagem da cocaína destinada aos EUA.

É natural que se indague o que levou Fidel Castro a determinar a execução de Arnaldo Ochoa e de diversas outras pessoas envolvidas no escândalo. Afinal de contas, elas participavam de uma operação que provavelmente ele mesmo havia autorizado. Conforme descrito pelo jornalista Andres Oppenheimer no livro Castro‘s Final Hour, houve pelo menos dois motivos. Primeiro, Fidel tomou ciência de que as autoridades norte-americanas estavam prestes a desbaratar a quadrilha cubana. Com intuito de evitar a propaganda negativa, o ditador criou a narrativa de que Ochoa e os demais atuavam por conta própria. Segundo, o general estava ficando popular demais nas forças armadas cubanas e poderia se tornar uma ameaça para o tirano. Assim sendo, ao executar Ochoa, Fidel teria resolvido dois problemas com um único fuzilamento.

Considerações finais

Os adeptos do credo socialista clamam que construirão um paraíso na Terra. Contudo, os seus pares incorrem no crime de narcotráfico quando não estão (como as FARC e o Sendero Luminoso) e também quando estão no poder (como no Suriname, na Venezuela e em Cuba). Será que essas pessoas realmente estão aptas a criar uma sociedade minimamente decente? Não fosse ela trágica e responsável pelo sofrimento de milhões, tal proposição deveria ser tão somente motivo de chacotas.

Indivíduos com posicionamentos politico e ideológico dos mais diversos cometem crimes. O que diferencia o criminoso socialista dos demais é a sua crença de que ele está contribuindo para a construção de uma utopia. Aos seus insanos olhos, a beleza da causa justifica todo e qualquer meio. Inclusive o tráfico de drogas.


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