Rio de Janeiro, . | Governo, Saúde


Entendendo o fracasso do confinamento

Alexandre B. Cunha

Buscando conter a disseminação da Covid-19, diversos países adotaram políticas de confinamento. Infelizmente, várias dessas nações não tiveram sucesso em impedir, de forma duradoura, a propagação do novo coronavírus. Discute-se neste breve texto um dos motivos para que o confinamento não seja suficiente para debelar a pandemia.

Ulisses e as sereias. Pintor: William Etty. Fonte: Wikimedia Commons.

As experiências do Reino Unido e da Argentina são bastante ilustrativas. Considere inicialmente o caso da nação europeia. No dia 23 de março último o seu governo adotou um rigoroso confinamento de alcance nacional. Após aproximadamente um mês e meio, no dia 7 de maio o número novos casos diários de Covid-19 entrou em uma trajetória de queda. Consequentemente, a partir daquele mês o governo britânico foi gradualmente removendo as restrições impostas pela política de confinamento. Infelizmente, desde julho o número de novos casos por dia tem crescido; ademais, esse crescimento se acelerou consideravelmente a partir do final de agosto. Assim sendo, há poucos dias o governo britânico voltou a impor algumas medidas de distanciamento social (por exemplo, restrição no horário de funcionamento de bares e restaurantes) e deixou claro que é possível que venha a adotar um segundo confinamento.

A situação da Argentina é ainda mais complicada. O país, que já se defrontava com diversos problemas econômicos antes da eclosão da pandemia, implementou no dia 20 de março deste ano um rigoroso confinamento. Apesar da adoção de algumas medidas de relaxamento ao longo dos últimos seis meses, a referida política ainda está em vigor. Em um primeiro momento, ela teve sucesso em conter a disseminação do vírus chinês. Todavia, durante o mês de junho os números diários de novos casos e mortes entraram em uma trajetória de crescimento persistente. Por exemplo, no último dia 21 o país havia registrado o recorde de mortes em um dia. E, infelizmente, não há qualquer evidência de que a Argentina já tenha atingido o pico da pandemia.

O ponto central do problema em análise é que, conforme já discutido neste blog, não é possível manter as pessoas confinadas por um período indefinidamente longo. Com ou sem autorização dos governantes, cedo ou tarde as pessoas começarão a sair de casa. E quando isso acontecer, aqueles indivíduos que até então praticamente não haviam tido contato com o vírus (e que por tal motivo dificilmente estarão imunes ao mesmo) começarão a contraí-lo e disseminá-lo. Por tal motivo, o confinamento deveria ser, no máximo, uma medida de curta duração com os seguintes dois objetivos:
(1) Contribuir para o chamado achatamento da curva.
(2) Dar tempo ao governo para que ele (a) amplie a capacidade do sistema de saúde e (b) implemente uma política duradoura e sustentável, como as da Coreia do Sul e da Suécia, para lidar com a pandemia.

A ideia de que o confinamento pode fornecer uma proteção permanente contra a Covid-19 é, pura e simplesmente, uma fantasia. Infelizmente, muitos governantes no Brasil e no resto do mundo caíram nesse canto de sereia.


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