Rio de Janeiro, . | Liberdade, Socialismo


Cuba não está sozinha: a Coréia do Norte também exporta escravos

Alexandre B. Cunha

Analisou-se no texto Um gato escondido com o rabo de fora: escravidão no programa Mais Médicos a natureza escrava do trabalho realizado pelos médicos cubanos que estão no Brasil. Esse problema já havia sido abordado em diversos textos e reportagens na imprensa e blogs nacionais. O que talvez venha a ser uma novidade para o leitor é que Cuba não é única nação socialista a adotar tais práticas. Apesar disso raramente ser mencionado no nosso país, a Coréia do Norte procede de maneira extremamente similar.

Em meados de outubro de 2015, existiam aproximadamente 52 mil norte-coreanos trabalhando no exterior. A maior parte deles estava na China e na Rússia. Adicionalmente, havia relatos da sua presença nos seguintes países: Argélia, Angola, Camboja, Guiné Equatorial, Etiópia, Kuwait, Malásia, Mongólia, Mianmar, Nigéria, Omã, Polônia, Qatar e Emirados Árabes Unidos. Com relação às ocupações, esses norte-coreanos trabalhavam principalmente como operários na indústria e na construção civil.

Assim como os médicos cubanos que estão no Brasil, esses norte-coreanos não tiveram a oportunidade de se candidatar diretamente (ou seja, sem a intermediação do seu governo) para os seus atuais empregos; a ditadura se apropria de parte dos seus salários e suas famílias são mantidas reféns no seu país de origem. Adicionalmente, todas as equipes de trabalhadores contêm entre os seus membros pelo menos um agente da polícia política, o qual se encarrega das nobres e revolucionárias atividades de controle e espionagem. Como se tudo isso não bastasse, eles não podem interagir com a população local fora do ambiente de trabalho. Não é difícil concluir que esses trabalhadores norte-coreanos estão naquela condição denominada no Brasil pré-abolição de escravos de aluguel.

A exploração de trabalho escravo por parte da Coréia do Norte já foi amplamente divulgada na imprensa internacional. Até mesmo veículos notoriamente ‘progressistas’ como o The New York Times e o The Guardian abordaram o problema em suas páginas. No final deste texto há um apêndice com links para diversas reportagens sobre o tema.

Andrei Lankov, professor da Universidade de Kookmin (localizada na Coréia do Sul), é um dos principais especialistas em Coréia do Norte. Como o próprio título deixa claro, no texto North Korean workers abroad aren’t slaves, ele discorda da visão de que esses trabalhadores sejam escravos. Apesar de relatar de forma clara a exploração a que eles são submetidos, Lankov argumenta que o fato de esses norte-coreanos terem voluntariamente optado em ir para o exterior demonstra que eles não são escravos. Interessantemente, não é incomum que o mesmo argumento seja utilizado no caso dos médicos cubanos. A despeito da sua respeitável obra, Lankov está equivocado nesse ponto específico.

O fato de norte-coreanos estarem voluntariamente trabalhando no exterior nas condições discutidas neste texto não demonstra que eles não estejam escravizados; porém, revela de forma inequívoca a monstruosidade que é a sociedade norte-coreana. Ou seja, as pessoas optarem em passar da situação X para a situação Y revela que Y é preferível a X; contudo, isso não demonstra que elas sejam livres em Y. A título de ilustração, considere uma situação hipotética. As fazendas A e B estão localizadas em uma sociedade escravocrata. Em ambas há trabalho escravo, sendo que em A o escravo passa fome, dorme no chão e é constantemente agredido. Por outro lado, em B ele é bem alimentado, tem um local minimamente confortável para dormir e não está sujeito a castigos físicos. Suponha agora que os proprietários das duas fazendas façam um acordo pelo qual A alugará alguns poucos escravos para B pelo período de um ano. É óbvio que a maior parte dos escravos da fazenda A desejará ir para B. E aqueles que tiverem a sorte de mudar não deixarão de ser escravos. Dito isto, a existência de voluntários norte-coreanos trabalhando na Rússia e em outros países mostra apenas que eles preferiram essa situação a permanecer no seu país natal; certamente, não prova que eles sejam ou não escravos (ou qualquer outra coisa) nos seus atuais locais de trabalho.

Dito tudo isto, vemos que a ‘heroica’ Cuba não está sozinha. Afinal de contas, ela não é a única nação socialista que reduz alguns dos seus nacionais à condição de escravos de aluguel. A Coréia do Norte também fornece evidências contundentes de que o ‘paraíso igualitário’ presente no discurso dos militantes socialistas é na verdade uma imensa e abjeta prisão.


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Apêndice: links

50,000 North Koreans Work Overseas in Slave-Like Conditions, U.N. Official Says

North Korea putting thousands into forced labour abroad, UN says

100,000 North Koreans sent abroad as ‘slaves’

North Korea Exports Forced Laborers for Profit, Rights Groups Say

Interview: Behind North Korea’s Use of ‘Slave Labor’