Rio de Janeiro, . | Economia, Esquerdismo


As raízes esquerdistas da política econômica petista

Alexandre B. Cunha

Este autor recebe com relativa frequência solicitações para explicar as diferenças teóricas que fizeram com que a política econômica adotada de 2008 até o fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff fosse tão distinta daquela que vigorou durante o governo FHC e os primeiros anos do governo Lula. Este artigo tem como objetivo proporcionar uma sucinta resposta para tal pergunta.

Inicialmente, há que se deixar claro a distância que separa os economistas simpáticos ao PT dos seus oponentes intelectuais. A título de exemplo, suponha que o Sr. X faça alguns exames de saúde rotineiros. De posse dos resultados, o médico A o libera para trabalhar, praticar esportes etc. Porém, ao avaliar os resultados dos mesmos exames, o médico B determina que X precisa se submeter imediatamente a diversas cirurgias extremamente sérias e complexas. Mais ainda: os médicos A e B não discordaram apenas nessa ocasião. Na verdade, ao avaliarem um mesmo paciente eles sempre apresentam diagnósticos diametralmente opostos.

As divergências entre os dois grupos de economistas não é menor do que as daqueles dois hipotéticos médicos. Cabe então indagar como pode ser possível que duas (ou mais) visões tão distintas possam ser apresentadas como respostas para um mesmo problema. Para os estudantes e profissionais da área de Economia, as diferenças são bem conhecidas e de fácil compreensão. O real desafio consiste em fazer com que os leigos em Economia tenham uma clara visão dos princípios fundamentais por trás das divergências. Em outras palavras, explicar a existência de visões tão díspares sobre a teoria e a política econômica sem apelar para expressões como restrição orçamentária intertemporal, agentes otimizadores, eficiência alocativa, inconsistência dinâmica, custo de oportunidade etc está longe de ser uma tarefa trivial.

Felizmente, existe pelo menos um ponto fundamental da discórdia que é de fácil compreensão. E, por incrível que isso possa parecer, o mesmo é extremamente similar a uma crucial diferença que separa um indivíduo conservador/direitista de um progressista/esquerdista. Essencialmente, o ponto em questão gira em torno da capacidade de aceitar o mundo como ele é.

Considere o hipotético exercício de avaliar os méritos e deméritos da sociedade norte-americana. Uma pessoa conservadora irá imediatamente comparar os Estados Unidos com outras sociedades que existem no presente e existiram no passado. Ou seja, a avaliação será feita tendo como referência aquilo que a humanidade já logrou realizar. Desta forma, o resultado será uma visão extremamente positiva dos EUA.

Um indivíduo esquerdista irá proceder de forma totalmente distinta. Ele tomará como referência algum paraíso que nunca existiu, e que jamais existirá, na face deste planeta. O seu padrão de referência será uma sociedade perfeita que somente existe na sua mente e nos diversos panfletos socialistas que ele leu ao longo da sua formação progressista. Não é então de surpreender que para um esquerdista os EUA constituam um monstro abominável a ser destruído…

Essa diferença faz com que o abismo entre um conservador e um progressista seja intransponível. O primeiro julga as políticas governamentais pelos seus resultados e não pelas suas intenções; ele entende claramente que há limites para aquilo que o governo pode fazer ao tentar promover o desenvolvimento; ele tem ciência de que todo governante tem o potencial para a corrupção e para a tirania e, por tal razão, é preciso impor limites ao poder do Estado etc. O progressista é exatamente o oposto. Como o seu padrão de referência é um mundo de fantasia, ele acredita que basta boa vontade para por fim as mazelas da humanidade; ele ‘sabe’ que o governo pode eliminar a pobreza em um passe de mágica etc.

Após essa breve digressão, podemos então retornar às questões puramente econômicas. O nosso próximo passo consiste em familiarizar o leitor com o conceito de produto potencial, o qual corresponde à produção máxima que uma sociedade pode alcançar sem que isso gere uma pressão inflacionária. A ideia é relativamente simples. Enquanto existirem recursos produtivos ociosos (por exemplo, trabalhadores desempregados e matérias-primas sem uso), existe espaço para se produzir mais bens. Porém, após a economia atingir um estado de utilização quase que plena dos recursos produtivos, uma tentativa adicional de empregar mais trabalhadores e comprar mais matéria-prima não será capaz de aumentar a produção. O único efeito dessa tentativa será o de elevar os preços desses recursos produtivos.

Vale ressaltar que o quase enfatizado no parágrafo anterior decorre do fato que, no mundo real, nunca se atinge um estado de plena utilização dos recursos. Devido à existência de várias fricções, como eventuais dificuldades logísticas para o transporte de bens e inevitáveis falhas na coordenação de uma empresa com os seus fornecedores, sempre haverá alguns recursos produtivos ociosos. De toda forma, para os fins deste texto o quase pode ser suprimido; o leitor pode entender o produto potencial como a produção máxima que a sociedade pode alcançar.

Iremos agora introduzir a noção de escassez. A Economia pode ser definida, de forma abreviada, como a ciência da escassez. A humanidade possui um montante finito de recursos produtivos (por exemplo, força de trabalho, máquinas, estradas, navios, terras agriculturáveis e matérias-primas) que podem ser utilizados na produção de bens de consumo (alimentos, roupas, computadores etc) capazes de suprir alguns dos seus ilimitados desejos. Essa situação faz com que surja a seguinte pergunta: de que forma humanidade utiliza os seus escassos recursos para satisfazer as suas infinitas necessidades e aspirações? A Economia é justamente a ciência que busca responder essa indagação.

A escassez é um conceito central na teoria econômica. E, por surpreendente que isso possa parecer, as políticas econômicas petistas a minimizam. Por exemplo, considere o seguinte trecho do texto A inflexão do governo Lula: política econômica, crescimento e distribuição de renda, de autoria do ex-ministro petista Nelson Barbosa e de José Antonio Pereira de Souza (ênfase no original):

Levando em conta os pontos acima, para os desenvolvimentistas o Brasil poderia acelerar seu crescimento econômico de modo sustentável com base na adoção de alguns estímulos fiscais e monetários por parte do governo federal. Obviamente, as restrições de recursos inerentes a qualquer economia não permitiriam atingir qualquer taxa de crescimento, mas seria possível alcançar uma taxa de crescimento um ou dois pontos percentuais acima do estimado pelos adeptos da visão neoliberal. Uma consideração ainda mais importante: o estímulo necessário para iniciar o círculo virtuoso de desenvolvimento poderia ser combinado com uma postura mais ativa do governo federal na redução das desigualdades na distribuição de renda e no aumento do investimento público. Enquanto a visão neoliberal respeitava com temor quase religioso a suposta barreira estimada para o produto potencial, a visão desenvolvimentista procurou testar na prática a existência de tais limites, de forma a ultrapassá-los. (p. 11)

O texto em questão, o qual está disponível aqui, foi publicado como um dos capítulos do livro Brasil: entre o passado e o futuro (2010), organizado pelos petistas Emir Sader e Marco Aurélio Garcia.

Nelson Barbosa e seu coautor explicitam de forma inequívoca a sua crença de que a ação governamental bem-intencionada é capaz de romper barreiras. E, possivelmente sem perceberem a irônica contradição, eles atribuem uma postura religiosa aos seus oponentes intelectuais! Peço agora ao leitor que se lembre dos trechos acima nos quais afirmei que um esquerdista “[…] tomará como referência algum paraíso que nunca existiu, e que jamais existirá, na face deste planeta. O seu padrão de referência será uma sociedade perfeita que somente existe na sua mente e nos diversos panfletos socialistas que ele leu ao longo da sua formação progressista […]” e que “Como o seu padrão de referência é um mundo de fantasia, ele acredita que basta boa vontade para por fim as mazelas da humanidade; ele ‘sabe’ que o governo pode eliminar a pobreza em um passe de mágica […]”. Claramente, a política econômica petista tem as suas raízes na forma fantasiosa pela qual os esquerdistas veem o mundo.

Porém, o trecho revela ainda mais sobre a forma de pensar de um economisPTa (economista petista). Os esquerdistas radicais com frequência mascaram a sua forma de pensar e os seus reais objetivos. Por exemplo, um militante da extrema esquerda jamais declara que ele deseja transformar o Brasil em uma tirania socialista. Ela afirma buscar a ‘ampliação’ da democracia. Ou seja, o revolucionário afirma ter como meta expandir a democracia quando na verdade ele quer destruí-la. Não é à toa que em países como Cuba e Coréia do Norte os campos de trabalhos forçados são frequentemente chamados de ‘campos de reeducação’…

De forma similar, um economisPTa não assumirá abertamente que ele acredita que a escassez de recursos é irrelevante. Ele primeiro afirma estar ciente das restrições decorrentes da escassez. Porém, logo em seguida ele faz declarações do tipo ‘é possível crescer um ou dois pontos percentuais a mais’ e ‘iremos testar e superar os limites’. Ou seja, assim como o revolucionário que afirma querer mais democracia na verdade almeja a sua destruição, o economisPTa que afirma saber que existe escassez de recursos na verdade a ignora.

É importante ressaltar que a crítica que aqui se faz não depende da exata definição de produto potencial. Seja ele definido como a produção máxima ou quase máxima, o ponto central é que um economisPTa acredita ser possível quer ir além dessa restrição. Dito tudo isto, cabe agora indagar se aquilo que os economisPTas propõem (e aplicam quando estão no governo) está fundamentado nos princípios da ciência econômica. A resposta é um retumbante não, pois até mesmo o básico conceito da escassez é negligenciado.


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